Edifício Itapetininga

Simpatias de Ano Novo IV

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- Pai? É o Bernardo...
- Fala, filhão! E aí, decidiu sobre a viagem?
- Sim, sim...Eu e a mamãe vamos descer amanhã. A Flávia, minha namorada, e a família dela também vão.
- Ah e vocês vão ficar com eles? - dava pra perceber pela voz do pai de Bernardo que agora que Adriana também iria pra praia ele preferia ficar longe deles.
- Com você, ué! O apê da Flá já tá lotado. Mas eu preciso do seu endereço pra te encontrar aí...

Bernardo anotou o telefone e voltou pro quarto.Cinco minutos depois de fechar a porta ela se escancarou e Adriana jogou uma sunga branca na cama do filho. Só fazia uma semana que tinha se separado de Carlos e já parecia a velha Adriana com enxaqueca, irritada e mal-educada.Nessas horas o garoto pensava se deveria ou não investigar o picareta do futuro-padrasto.

 

No dia seguinte desceram a serra no Civic vermelho de Adriana na companhia de Dona Lucrécia e Flávia e alguns lanchinhos e farofas pra comer na ceia de Ano Novo.
Flávia e a avó ficaram no apartamento da família, logo na entrada da cidade enquanto Adriana e Bernardo seguiram até o centro, no chalé de Jaime.

Era um chalé espaçoso de 4 quartos, 3 suítes, salão de jogos, churrasqueira e uma bela varanda com algumas redes na entrada.
Jaime saiu sorridente no portão, abraçou Bernardo e cumprimentou Adriana com a distância de um desconhecido. Foi até o Honda tirar as malas enquanto Adriana ficava medindo centímetro por centímetro o jardim do chalé.

- Adriana, você não tem usado muito o carro, né?
- Por que você tá perguntando isso?
- Já faz algum tempo que não me chegam contas de mecânicos por conta de batidas, hahahahaha!
- Jaime, me poupe de suas delicadezas e brincadeiras, tá bom? Você pode andar mais rápido com essas malas? Minha enxaqueca está voltando e estou louca pra ir me deitar.

- AAAAAAAAAH! SOCORRO! LADRA! - Adriana gritou quando abriu a porta do chalé para que Jaime e Bernardo pudessem entrar com as mãos carregadas

Simpatias de Ano Novo III

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- Bernardo! Até que enfim! Seu sumiço já tava me dando dor de cabeça!
- Mal por não ter avisado, mãe. Tava na Flávia resolvendo as paradas de Ano Novo...
- Ah, filhinho! - Adriana fez questão de fazer cara de choro - Você vai mesmo viajar e deixar a mamãe sozinha?
- Ah, então, acontece que o pai ligou, também. Vou passar o ano com ele em Praia Grande. A Flávia também vai pra lá com a família dela, mas o apê deles já tá cheio.
- Ah, Bê...Você tá sabendo dos casos de água-viva por lá, né? Eu acho melhor você não ir! Sem falar que a mamãe não quer ficar aqui sozinha...Nem o Carlitinho tá aqui pra me fazer companhia! - a voz voltou a ficar chorosa.
- Bom, o papai sabia que você ia mesmo fazer drama...Ele te convidou pra descer, também...
- O SEU PAI ME CONVIDOU PRA VIAJAR COM VOCÊS? Mas ele não fazia isso nem quando éramos casados!
- Pra você ver como ele tava de bom humor...
- Ah, aí tem! E eu vou descobrir!
- Então, tá, mãe, vô arrumar as coisas pra descer e acho bom você fazer o mesmo logo, antes que o pai pense que nós não vamos...
- Mas e se o Carlitinho ligar, Bê?
- Ele não liga desde que viajou e vai ligar agora? Presta atenção, né?
- Ele disse que ia pra uma fazenda de um tio distante na ceia de Natal...Lá não deve ter telefone e nem sinal de celular, filhinho.
- Pois é. E onde ele deve passar o Ano Novo também não. E qualquer coisa ele liga no seu celular, vai...
- Ah, é verdade! Ele pode me ligar bem a meia noite no celular e enquanto o céu se enche de cores, eu vou ouvir aquela voz sexy bem no meu ouvidinho...
- MÃE! Me poupa, né?
Bernardo saiu da sala e foi pro quarto separar a roupa de banho e as outras roupas que levaria.
A mãe correu pro supermercado para comprar vários cachos de uva pra comer à meia-noite.

Simpatias de Ano Novo II

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- BÊ! - Flávia se agarrou no pescoço de Bernardo.
- Oi, Flá! Bebê, como ficou o negócio do ano novo?
- Ah, Bê...Eu ia te ligar a noite pra falar sobre isso...Miou o lance
de você ir com a gente pra praia - Flávia fez uma voz manhosa que quase
derreteu a alegria de Bernardo ao saber que poderia viajar sem magoar a
namorada - O apê da mãe vai lotar! Minha vó resolveu convidar as amigas
da Associação da Terceira Idade pra ir com a gente! Acredita, môzinho?
Agora o meu bebê não vai mais jogar as flores pra Iemanjá...
- Que pena, Flá...Mas as flores e os pulinhos tão parcialmente garantidos! - dessa vez Bernardo se sentiu no direito de sorrir - Meu pai ligou dizendo que tá em Praia Grande e quer que eu desça!
- Praia Grande? Você tá brincando, né, morzinho?! - mais um pulo sufocante no pescoço de Bernardo - O nosso apê também fica lá!!!
- Sério, môr? - Bernardo não podia acreditar em tanta sorte de uma vez só! Poderia passar o ano novo com o pai, a namorada, a família super legal da namorada e, com um pouco de sorte, com a mãe!

Ele ficou na casa de Flávia até escurecer. Assistiram Street Fighter na Sessão da Tarde. Bernardo foi então para a batalha final: a mãe.

Simpatias de Ano Novo I

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- Alô?!
- Bernardo? Filho?
- Pai?!
- Filhote! Como vai? Tudo bem?
- Sim, tá tudo bem, pai...
- Filhão, desculpa não ter te levado na casa da vó no Natal...O pai foi viajar! Tô falando agora aqui da Praia Grande...
- Viajando com os amigos?
- Ah, não exatamente...Mas isso é algo que eu quero te falar pessoalmente, hahaha
- Hum...
- Filhão, quer vir pular as 7 ondinhas esse ano novo?
- Como?
- É, filho! Estou ficando num chalé enorme! Achei que você ia preferir passar o Natal com a sua mãe e o ano novo comigo, já que ela é mais ligada em Natal em família e tal...
- Ah, pai, eu não sei...O namorado da mamãe viajou e eu não quero deixá-la sozinha! E tem a Flávia, também...Ela tava falando de me levar pra descer a serra com a família, já...
- Bom, filhão, conversa direitinho e liga no celular do papai. Se quiser...Bom...Se quiser... - ouviu-se um suspiro do outro lado do fone - Se você for se preocupar muito, pode trazer a sua mãe!
- Uau! Essa é novidade! Hahaha! Tá bom, pai.
- Falou, filhão! Fui!

Bernardo desceu a escada, pegou a bicicleta na garagem e foi falar com Flávia. Ele nunca tinha passado ano novo na praia e no mesmo ano tinha dois convites!
E o do pai era realmente especial. Fazia anos que seu pai não o convidava pra nada além de ir na casa da vó ou comprar o seu presente de aniversário. Por isso foi à casa de Flávia, ver como estavam os planos de ano novo e pra onde iriam, se fosse o caso.

 

Ressureição social V

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- Felipe! - Marcela disse feliz quando ouviu o "alô" apático característico do veterano
- Boa noite, estou indo dormir. Me desculpe por atrapalhar a conversa.

- Não, espera, Felipe! Tenho que conversar com você!!

Felipe pára na porta, vira e vê Pinga e Marcela sentados um em frente ao outro e responde:

- Sério, Marcela, tô muito cansado...

- Sentaê, Felipeta!! Já tô me mandando...Levantei só porque o babaca do Jonas me acordou. - Pinga se levanta, dá uma piscada para Marcela e um tapinha nas costas de  Felipe e saiu da cozinha.

Felipe olha torto pra Pinga "quem ele pensa que é pra ficar me dando tapa nas costas?".

- Felipe, eu tive uma idéia nova para esse Natal! - Marcela ficava radiante quando falava do assunto - Olha,  tô até fazendo uma árvore de Natal de crochê!

- Legal, Marcela - Felipe decidiu entrar na cozinha e pegar um copo de leite antes de ir dormir.

De todas as respostas sobre Natal, a do Felipe foi, com certeza, a mais seca. Marcela atribuiu o desinteresse ao cansaço e perguntou a ele o que ele andou fazendo.

- Bom, eu tava com poucas matérias na faculdade...Já tinha fechado tudo há um mês. Aí eu passei um tempo fora, fazendo umas visitas aqui, outra ali, fui dar um alô na casa dos meus pais, resolver umas coisas...

- E por que você não avisou a gente?! Todo mundo aqui tava preocupado, achando que você tava super ocupado, morrendo de pena!

- E daí, Marcela? Eu não devo satisfações pra ninguém aqui, devo?! Além do mais, a maioria aqui quer me ver pelas costas. Pra que me preocupar em avisar todos esses filhinhos de papai?

- Como assim, Felipe? Tem gente aqui que se preocupa mesmo com você! Eu mesma me preocupo com você! Muito!

Felipe ficou vermelho.

- Você diz isso agora, mas com certeza é da boca pra fora....

- Da boca pra fora? Então você está falando por você! A única coisa que eu vejo você fazendo é reclamar de todos aqui dentro!
Você nunca deu uma demonstração de que alguém aqui fosse importante de
alguma maneira pra você!- O rosto de Marcela
começou a ficar vermelho como da vez que ela chegou da conversa com
Ricardo, seu ex-namorado.

- Marcela, calma, não é isso que eu quis dizer... - Felipe se preocupava que a amiga tivesse alguma parada cardíaca..

- Calma? Você pede calma? Mas como se você não tem consideração nem comigo e nem com os outros que estão
aqui! É isso? É você que não gosta da gente?  É você que quer nos ver pelas costas? Então pode ficar tranquilo, Felipinho!

- Ei, espera aí! Tá me ameaçando, tá? Tá querendo me expulsar? Então se lembra que o aluguel desse muquifo tá no meu nome!

- Não, queridinho! - Quando Marcela usava queridinho ou queridinha seu humor não estava nada bom! - Eu tô caindo fora! Vou morar com a minha prima! Eu tava a fim de fazer um Natal bacana antes de contar pra todo mundo que eu ia embora! - a vermelhidão do rosto de Marcela começou a virar lágrimas.

- O que?! Não, não, pára, Marcela! Eu vou embora, você fica! Pára! - Felipe se ajoelhou pra ficar na altura da cadeira em que Marcela estava sentada - Pára, vai...Pára de chorar! Eu vou embora...Eu só causo problemas aqui, mas você não, você é querida por todos! E eu já tô procurando outro apartamento... Eu andei sumindo por isso, também. Já faz tempo que eu tô falando que queria me mudar. Por favor, Marcela, pára de chorar!

- V-v-você tá falando sério? Você também tava planejando sair daqui?

- Como assim também? Não era só um ataque de raiva? Você vai mesmo embora?

- Claro que vou! Mas eu não queria que ninguém soubesse, ainda!! Agora eu voltei a ser amiga da Joana, vou morar com ela, com meus tios, sai mais barato...Não tem nada a ver com a república ou com o Itapetininga...

- Sabe, Má...Ainda bem que eu vou embora também, então...Isso vai ficar insuportável sem você aqui...

Marcela sorriu e achou que aquela era a melhor hora pra falar do amigo secreto.
Felipe queria distância de amigo secreto, por motivos próximos ao do Pinga, mas então lembrou que seria a despedida e aceitou participar.

Natal... em família?

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Bernardo sempre teve horrores a feriados. Isso significava tentar comemorar algum dia com sua mãe, Adriana, reclamando o tempo inteiro.

Esse Natal era o primeiro que eles iam pasar junto do namorado novo da Adriana, o picareta do Carlos. Picareta pelo menos é o que o Bernardo achava dele.

- Mas você vai viajar no feriado de Natal, com a sua outra namorada! - disse a Adriana, gracejando para o Carlos, no dia 19 de dezembro. E isso era significativo: a Adriana raramente tinha gracejado alguma coisa na sua vida inteira.

No final das contas, ele anunciou dois dias depois que ele iria passar o Natal com a família, em Goiás. Ninguém sabia que ele tinha uma família em Goiás e ele não especificou a cidade. Uma tia mudou para lá, depois trouxe junto a mãe do Carlos quando o pai dele morreu. História longa, aborrecidíssima, e seria melhor a Adriana nem ir porque seria muito chato e ele só está indo mesmo porque... Além de tudo, coitado do Bernardo, não merece passar o Natal numa cidadezinha (não especificada) de Goiás só porque... etc.

Pois é. Não acaba por aí a história. Quando soube disso, a namorada, agora a namorada do Bernardo, Flávia. Quando a Flávia soube disso tudo, mandou que o Bernardo levasse a mãe dele para jantar fora no dia 24 e que fosse mesmo e num lugar bom porque ela (a Flávia) ia junto.

Foram todos - namorada, filho e a mãe que estava sem o namorado - num restaurante de massas. Comeram pouco, pediram o que nenhum dos três gostava, pagaram demais, tiveram problemas com o vinho e com o estacionamento.

Foi alguma coisa pelo menos. E pelo menos tiveram no dia 25 um bom almoço, agradável, no 1416, da Dona Lucrécia, a avó da Flávia.

Planetcorp

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- A empresa até que é bacana, mas o chefe...

Essas reticências foram a indicação do que eu viria a enfrentar na minha empresa.

Essa frase foi dita por um amigo meu já faz algum tempo. Nós estávamos no último ano do curso técnico de Informática e, pra podermos retirar o diploma, precisávamos cumprir um estágio de 400 horas. Como eu detesto Informática (queria fazer Relações Internacionais), o estágio era uma mera formalidade e o meu objetivo era cumpri-lo com o mínimo de aborrecimento possível.

Eis que meu amigo me recomenda a Planetcorp. Planetcorp? É uma escola de inglês? Dei uma pesquisada no Google. A Planetcorp é uma empresa que vivia de produzir sistemas e sites meia-boca para todo o Brasil. Possuía escritórios em São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Pederneiras. Pederneiras? É a cidade natal do chefe. Ah, tá.

Sem grandes ambições dentro da Informática, enviei meu currículo para lá. No mesmo dia, recebo um telefonema. Uma mulher, de voz bem simpática, que se apresentou como, caham, Somaliene, me chamou para uma entrevista na Sexta-feira daquela semana. Eu não estava exatamente empolgado. Na verdade, a minha única motivação era conhecer a tal de Somaliene: ela deveria ser bem feia para ter este nome...  

Chega a Sexta-feira. Acordei cedo, me arrumei, tomei o ônibus (a empresa ficava bem próxima à escola) e cheguei meia hora antes do horário marcado, que era às 9:00. O escritório ficava no Itapetininga, no 15º andar. Enquanto a Somaliene não chegava pra me atender, eu fiquei lendo algumas Vejas que estava no saguão do prédio. Não faltava muito para as 9:00.

Somaliene chegou na empresa às 10:30. Nisso, eu já havia lido, relido e lido outra vez todas as revistas do saguão. Ao contrário do que eu imaginava, Somaliene possuía todos os dentes da boca e não era nariguda. Veja só, era uma mulher bonita! "Você é o Ícaro, certo? Prazer, eu sou a Somaliene. Desculpe o atraso, meu carro quebrou. Vamos subir."

O escritório era dividido em duas partes. Uma delas era o escritório propriamente dito, com os programadores, os computadores, a máquina de café. A outra parte, na qual eu e Somaliene fizemos a reunião era uma... uma... uma sala vazia. Sim, vazia, sem absolutamente nada. Mentira. Havia um monitor abandonado no chão. Com o cabo arrebentado. E alguns balões. E uma garrafa meio vazia de Guaraná Kuat. Pelo visto, era um salão de festas, eventos e reuniões. Interessantíssimo, ainda mais se tratando de uma empresa de, no máximo, 8 pessoas.  

A entrevista foi normal. Somaliene era uma pessoa legal, que de ruim só tem o nome. Contei que estudava alemão, que meu sonho era fazer Relações Internacionais e que odiava Informática. "Jura? Haha. Você nem acredita o curso que eu fiz. Ciências Sociais!"

A entrevista foi bacana e ela foi com a minha cara. Mas havia outra parte: a prova técnica. O problema é que ela não poderia ser aplicada no mesmo dia porque o computador utilizado para testes estava quebrado. Então, eu teria de voltar na semana seguinte. 

Antes de ir embora, Somaliene me levou pra conhecer o pessoal. Os caras que trabalhavam lá eram tão expressivos, mas tão expressivos que não merecem uma descrição melhor. O mais interessante era aquele cara sentado na mesa sofisticada, com um notebook. Gordo, cabelo visivelmente seboso, pés descalços, metido a yuppie, aparentemente mal-humorado, algo próximo de um Doutor Pimpolho. Com vocês, o chefe: 

- Európio, esse daqui é o Ícaro, um dos candidatos.

Európio? Hahahahaha! Európio? Somaliene? Hahahahaha! Isso daqui, DE FATO, é a Planetcorp! Hahahahaha!

A constatação pseudoengraçadinha deu lugar à antipatia depois da reação do Európio:

- GHRWNF.

GHRWNF? Que merda de som foi esse? Foi um grunhido? Será que eu, como animal de outra espécie, estava invadindo seu espaço? Ou será que era um cumprimento em alguma língua uralo-altaica? De repente:

- Mas que porra, meu! Vá pra puta que o pariu! Puta nega burra, burra, burra! Tem cliente que é cabaça mesmo, viu? Vá se foder!

Sabe de uma coisa? Preferia o GHRWNF.

Terminava aí a entrevista e a apresentação. Minha impressão se confirmava: a empresa era mambembe, mesmo. Pra um programador mambembe como eu, ótimo.

Depois, enquanto atravessava a rua, quase fui atropelado por uma moto. O motociclista me xingou. Foi a melhor parte do meu dia.

Ressureição Social IV

Pinga

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Marcela continuou na sala esperando algum sinal do Felipe ou do Pinga. Ficou fazendo a árvore de Natal enquanto Jonas babava por todo o sofá.

Já passava da meia noite quando Jonas acordou e foi deitar na sua cama. Como ainda estava meio sonolento, Jonas errou a porta e deitou na cama de Pinga, que acordou assustado e mandou Jonas ir pro outro quarto.

Já que tinha acordado, Pinga resolveu comer alguma coisa, já que não fazia isso direito há uns cinco dias. Quando passou na sala assustou em ver a politicamente correta Marcela acordada.

- Pô, Má, acordada, ainda?

- Ah, sim, tô fazendo crochê e a luz do quarto é muito ruim...Tem dias que ela só acende com uma pancada!

- Esse prédio tá mesmo caindo aos pedaços - Pinga respondeu indo para a cozinha

Marcela foi para a cozinha, também, não tinha jantado e precisava de um copo de leite quente.

- Pinga, você tá acabado!

- Nem me fale, Marcela...Eu tomei tanta porcaria pra ficar acordado e terminar os projetos do curso que tô acabadão! E os nerds da minha sala nem quiseram me dar uma força, cara!

- Bom, eles tão certos, né , Pinga? Você só ia em festas, nada de fazer seus trabalhos...

- Iiiiih! Ter aulas com o Felipe te fez ficar mais chata! Já vai começar com lição de moral, é?

- EI! Eu não tô chata como o Felipe!! E faz dias que eu não o vejo, também...Ele matou as últimas aulas que faziamos juntos e tá trabalhando e tal...Hoje ele nem chegou, ainda!

- Como assim a bichinha ainda não chegou? Ele tinha me dito que já tinha acabado todas as matérias, pô!

- Sério? Nossa, será que aconteceu alguma coisa com ele?! - disse marcela assustada.

- Ah, não, vaso ruim não quebra fácil, desencana, Má! - Pinga ria enquanto imaginava Felipe torturando os sequestradores com seu jeito.

- Marcela, que você tá fazendo aí de crochê?

- Ah, é uma árvore de Natal pra República! Queria deixar de presente pra casa...

- Pô, da hora! Pena que a galera aqui não é muito ligada nisso, né?

- É...Pinga, eu tô falando com o pessoal de fazermos uma confraternização de final de ano...Um Natal com direito a amigo secreto antes do fim das aulas!

- Ah, legal a idéia, mas eu não sei, não... O último amigo secreto me deixou com um olho roxo! E você sabe como a turma não é muito unida, né?

- Eu sei que não... Por isso mesmo eu acho que a gente precisava se unir pra fazer alguma coisa. Eu não consigo acreditar que ninguém goste de ninguém, aqui!

- Ah, claro que tem gente que gosta de gente, aqui...Hehehehehe - Pinga dava uma risadinha irônica e piscava pra Marcela, que não entendeu onde ele queria chegar com aquilo.

- Vai, Pinga, me ajuda com a festa, vai! Participe!!!

- Tááááá! Tá bom, Mascote! Eu te ajudo! E participo dessa baboseira!

- AH!!!! Obrigada, Pinguinha lindo do meu coração!!! - Marcela deu um abraço profundamente agradecido em Pinga.

- Alô. - dizia uma voz séria vindo da porta

A família do Franz

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A família do Franz estava em festa. Dona Iracema e seu Giuseppe, os pais de Franz e Melissa, comemorariam bodas de prata. Foram 25 anos de um casamento perfeito e de uma família unida, coesa, com filhos maravilhosos e felizes. A festa não seria pequena: contaria com parentes, amigos, vizinhos. Era um acontecimento da pequena cidade de Cruzália, interior de São Paulo.

Teoricamente, a festa não contaria com a participação de Franz. Não fazia sentido, para ele, encontrar o pai, a irmã chata, os tios caipiras ou os primos invejosos. Franz, na verdade, só foi em respeito à mãe. E, a pedidos desta, levaria Marina também. "Quero conhecer minha nora", disse. 

Dentro do carro:

- Olha, amor, se eu não conversar com ninguém lá, não se assusta. Meu pai só sabe arrotar na mesa, a Melissa só reclama da vida, meus tios só ficam falando do Palmeiras e eu mal conheço o resto. Compensa você ficar conversando com a Fofinha, a leitoa de estimação da minha mãe...

- Ai, Franz, não diz besteira. Pára de implicar com todo mundo!

- Eles são mal-educados, barulhentos, atrasados, fofoqueiros e provincianos. Do tipo que se olhassem pro MASP, diriam "cambada de pedreiro burro, sô, fizero tudo errado"!

- Tsc tsc...

Depois de uma longa viagem, o casal chega a uma fazenda, com o antagônico nome de "Harmonia". Era a fazenda onde o Franz tinha sido criado até ir pra São Paulo. 

- Fraaaaaanz, meu filho! - dona Iracema o recebe com AQUELE abraço.

- Marina, esta é a tal da mamãe. E aquele bêbado barrigudo de camisa listrada que tá rindo feito idiota é o marido dela.

- Franz, não fala assim do seu pai!

Deu um certo trabalho apresentar todos os 84 presentes na festa, ainda mais pessoas como "Marina, este é o vizinho do amigo do tio do meu pai... ou da minha mãe?".

A melhor parte da festa, sem dúvida, estava na mesa. Leitão à pururuca, lombo recheado, maionese, polenta ao sugo, pudim ao leite com ameixas, doce de abóbora, tudo isso regado a vinho tinto. Franz e Marina, como bons anti-sociais cosmopolitas, sentaram em qualquer lugar com seus pratos enquanto as pessoas passavam e diziam qualquer coisa como:

- Ah... é essazinha aí que é sua namorada?, Franz?

.

- Nossa, mal começaram e você já está grávida?

- Mas eu não estou grávida!

- Tia, cala a boca!

.

- O cabelo dessa aí não era bonito como o daquela sua outra namorada...

- E você pode vir falar bastante dela com esse seu cabelo tingido com mostarda Arisco, né?

.

- Ah, vem mais aqui, que eu te levo pra conhecer a minha igreja... lá você vai realmente conhecer o caminho das pedras!

- A Marina não é garimpeira, porra!

.

- Quem é você?

- Como assim? Eu sou o Franz, o filho da Iracema e do Giuseppe!

- Iracema? Giuseppe?

Mas o pior veio da Melissa:

- O que você tá fazendo aqui? Você não gosta do papai.

- Você manda  em mim?

- N...

- Minha filha, você não consegue nem mandar no seu filho ou no seu marido. Olha ele lá, o moleque quebrando o câmbio do trator da fazenda. Enquanto isso, seu marido tá conversando com aquela prima nossa que é modelo da Ford. Então, não me enche o saco.

- A propósito, eu achei que sua namorada era mais bonita.

Aí a Marina enfureceu.

- Pelo menos, não tenho chifres nem flatulências!

- FRANZ! Você conta coisas íntimas minhas para ela?

- Vá cuidar do seu marido. Olha ele colocando as mãos em território proibido na modelo da Ford...

.

A festa seguiu em um panorama mais ou menos constante. "Seo" Giuseppe se matava de beber caninha. Dona Iracema, solícita e simpaticíssima, tratava de atender bem as outras 85 pessoas da festa. Melissa reclamava. As crianças corriam pela casa. Alguns tios bebiam, outros comiam feito porcos, outros brigavam por causa do futebol. O bolo era gorduroso. Os animais, na média, estavam mais civilizados que os humanos. Franz? Sentado, evitando conversar com as pessoas. Marina? Jogando paciência no celular.

Depois de um longo dia, Franz e Marina estavam com seus humores característicos. Franz, dentro do carro:

- Que pena que fritaram a Fofinha, a "pessoa" mais legal da fazenda.

- Podiam ter fritado uma das tias... - Marina, sussurrando a si mesma.

- Como?

- Não, Franz, nada.

- Eu discordo. Acho que, se fritar o meu pai, rende mais carne.

Ressurreição social III

Jonas

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Depois de chegar em casa com Vinicius, Marcela foi correndo avisar Barbara de que já tinham condições de fazer o amigo secreto.

- Certo, guria! Mas o Vinicius nem conta, né? Ele é todo alegrinho, meigo e bobo feito você! Lógico que ia aceitar! Hahahahaha! - respondeu Bárbara, ainda duvidando da capacidade da colega de organizar a confraternização da república.

Marcela, em compensação, já tinha se sentado na sala esperando a próxima vítima.
Enquanto esperava, a garota fazia uma árvore de natal de crochê que tinha aprendido com a avó.

Três horas depois, quando a base da árvore estava pronta, a porta do apartamento abriu.

- Alô! - dizia uma voz embriagada.

- Boa tarde, Jonas! Tá vindo da faculdade?

- Pode crer...Tem picles aberto? Aquele livro do Gramsci me deixou faminto!

- Senta aí que eu pego, você parece...meio...atordoado! 

- Valeu, cara!

Marcela abriu os picles, separou num prato e levou pra Jonas.

- E aí, já acabaram as provas?

- Pô, finalmente, cara! Mas tô manjando aquele chauvinista do adorador de Foucault me deixando de "dp"...

- Poxa, mas por que, Jonas? - Marcela não tinha idéia do que ele tava falando, mas deu corda.

- Ah, mano! Ele tá se achando depois que a Globo ficou falando de Foucault naquela babaquice de Tropa de Elite, lá...O cara não manja que o real sentido do filme é  fazer a galera se tocar que a elite não tá com naaaaada! Que o que falta no país é uma divisão igualitária de bens e meios de produção. Se a galera da favela partisse pra cima do B.O.P.E. de verdade, eles estariam enfrentando os representantes do governo, véio! Daí pra tomar o poder do governo é um passo, só! Aí, véio, os caras iam fazer a Revolução! Se pá, iam fazer florescer em toda a galera das massas a consciência de classes que eles não tem, cara! - Jonas começou a rir todo feliz pensando na revolução contra o B.O.P.E.

- Puxa, Jonas, eu nunca pensei no filme por esse aspecto, você tem razão, cara! - Marcela deu um tapa no ombro de Jonas que fez ele cair no tapete (e ela não é forte).

- Tá vendo, Má? Falei isso praquele babaca e ele disse que não tem nada a ver com a lógica de Foucault, cara! E daí?! Foucault não tá com nada! Aquele bichinha careca! Marx sim sabia das coisas!!!

- Falando em Marx, Jonas, onde você vai passar o Natal?

- Natal? Aquela festa capitalista com comidas gostosas? Pô, Má, sei lá! Em casa, eu acho! Por queee??? - a voz de Jonas ficava cada vez mais arrastada...

- Ah, porque a Bá tá a fim de organizar uma festinha pra celebrar o fim de ano aqui em casa!

- A Bá? Pô, cara, a Bá não me quer na festaaaa!!! - a voz passou de arrastada pra chorosa

- Claro que quer, Jonas! Ela que pediu pra eu convidar, porque ela tá sem graça de falar com você depois de tudo que ela fez, sabe?

- Sééééério?! - os olhos dele brilhavam.

- Claro, Jonas! Mas não fala nada pra ela que eu já te convidei, não! Pra fazer surpresa!

- Pô, Má, que da hora! Será que a Bá quer fazer as pazes??

- Hum, não sei, Jonas...Mas tem mais umas exigências que ela fez!

- Se for ler Foucault eu não venho em festa nenhuma! Nem que tenha Itaipava no prédio todo!!!!

- Não, não!! Ela não quer que você leia Ficou! A primeira é que você se vista de Marx!

- Marx? Como assim?!

- Deixa tudo comigo! Eu arrumo a barba e a roupa vermelha pra você! - Marcela ria por dentro enquanto imaginava a cena - A outra é a mais importante! Você tem que participar do nosso amigo-secreto!

- Ah, não, Má! Isso é muito capitalista, cara! Pô, ficar comprando presentinho? Pior ainda, presentinho chinês, porque o limite de preço é sempre baixinho! Isso aí é fortalecer a exploração de mão de obra chinesa, cara!

- Muito pelo contrário, Jonas! Com isso você fortalece a imagem da China perante o mundo! E você ainda se lembra que a China é um dos últimos países comunistas do mundo, né? Você vai fortalecer a imagem do comunismo e de Marx no mundo inteiro!!!

- PÔ, MÁ! Tu é gênia, cara!!! Eu agrado a Bá, ganho um presentinho e ainda levanto a imagem do Marx no mundo! Pô, da hora! Tô dentro, vou participar!!

- Isso, Jonas! É assim que se fala! Nada de deixar o Ficou ficar na mídia!!

- É, é isso, mesmo.... - a voz foi ficando cada vez mais arrastada e Jonas adormeceu no sofá.

"Só espero que ele ainda se lembre disso quando acordar!" - pensou Marcela.

Ressurreição social II

Vinicius

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Depois da aposta que fez com Bárbara, Marcela ficou de prontidão na portaria do Itapetininga esperando seus colegas de república.

O primeiro a chegar foi Vinicius. Ele vinha com uma sacola do sebo cheia de livros de poesia, ouvindo seu mp3 e com o sorriso bobo e tímido de sempre.

- Vini!! - Marcela gritou da portaria para o colega que vinha na outra esquina.

- Ah, oi, Marcela! - respondeu Vinicius, na portaria, enquanto tirava o fone do ouvido - Aconteceu  alguma coisa no apartamento?

- Siiim! Você nem acredita! O Pinga reapareceu!!

- Ah, puxa, que legal, né? Eu não converso muito com o Pinga, mas eu acho ele um cara super legal! Hehehehe - Vinicius dizia tão espontaneamente que Pinga era legal, que até parecia que eles eram amigos de infância.

Marcela sorriu. Sabia que convencer o Vinicius não seria uma tarefa difícil.

O rapaz foi abrindo a porta do elevador, esperou Marcela entrar e apertou o 16º.

- Vini, quando você tá pensando em voltar pra casa?

- Não sei, Marcela...Estou esperando sairem as notas pra poder voltar. Vai que eu pegue algum exame, né?

Marcela pensou consigo mesma "Ele não tem mesmo noção de quanto é nerd ou é só tipo?"

- Ah, então, Vinicius, tava pensando em organizarmos um amigo secreto com a galera da república! O que você acha? - Marcela fez um sorriso tão grande e tão alegre que nem a pior pessoa do mundo conseguiria resistir. Muito menos o Vinícius!

- Ah, claro! Com todo o prazer! Eu participo, sim! - Vinicius respondeu empolgado.

Chegaram no 16º andar. Marcela abriu a porta do apartamento saltitando!!

Ressurreição social I

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Pinga abre a porta da república de sopetão, com cara de sono e uma barba 3 vezes maior.

Marcela e Bárbara, que estavam em seus quartos, saem, assustadas com o barulho.

- PINGA!!! - gritam as duas.

- Fala, galera! Ow, não é nada pessoal, mas tô indo pra cama, me acordem semana que vem, falou? - e bate a porta do quarto.

Marcela e Bárbara se olham:

- Tadinho do Pinga, né, Bá? Ralou pra caramba nessa última semana!

- Eu também, né, Marcela? Mas eu finalmente terminei o último fichamento!! Só tô esperando uma resposta aí e, se pá, semana que vem tô indo de volta pra terrinha! - disse Bárbara com um sorriso maroto e aliviado no rosto.

- Nossa, é mesmo! Todo mundo já tá acabando tudo por aqui!!! E eu quero fazer um amigo secreto com toda a galera, Babi!

- Amigo secreto? Fala sério! Já pensou eu tirando o Jonas, ou o Pinga e o Felipeta se tirando? Desiste, Má! Nem rola!

- Mas é final de ano, Bárbara! Hora de todo mundo dar as mãos, cantarem juntos, esperarem coisas boas pro ano que vem! E não tem nada melhor do que terminar o ano em paz! - o olhar de Marcela reluzia enquanto falava.

- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!! Você é tão engraçada, Marcela! Seu jeitinho meigo é muito engraçado!! Tá bom, você me convenceu! Mas tem que convencer todo mundo a participar, também! E você, sozinha, tem que fazer isso!!! - dizia Bárbara com risadas intercaladas

- Você tá duvidando, Bárbara? 

- De você? Não! Eu duvido é que os outros queiram participar!! - E Bárbara ria ainda mais.

- Então espera todo mundo chegar, espere! 

Marcela não tirava a idéia da cabeça desde o dia em que despareceu da República. O desespero de todos a sua procura fez ela sentir-se imensamente feliz de fazer parte dos Picles Acadêmicos. Ela achava que deixar tudo em ordem, todo mundo de bem, seria a melhor forma de agradecer.

Reunião de Condomínio

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Afixado em diversos pontos do Itapetininga:

Caros condôminos,

Convoco a todos a participarem da reunião de condomínio que se realizará na próxima sexta feira às 19h. Peço a presença dos moradores e de representantes da parte comercial do edifício.

A reunião será presidida por Dinorá, corretora de imóveis, já que o senhor síndico encontra-se fora da cidade.

Espero a colaboração de todos!

Atenciosamente, 

A administração do prédio.

Ego

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"Rickie B. Rockfeller desce de seu Rolls Royce Silver Spur. O motorista o desembarca em frente ao Montecito Resort. Depois de uma longa viagem, "mister" Rockfeller, 33, magnata, dono de um conglomerado de empresas que incluía uma petrolífera e uma rede de fast food, se encontrava na efusiva Las Vegas, talvez a maior cidade de mentira do mundo.

Rickie era um yuppie no auge da exuberância que os petrodólares e os hambúrgueres gordurosos podiam comprar. Alto, bonito, de cabelo sempre penteado, terno e sapatos italianos, ele dispensa o casino. Queria algo mais terreno, como uma caminhada. Era noite em Las Vegas, as luzes dos cabarés e dos letreiros da Sony se misturavam na escuridão.

De óculos escuros e sorriso Colgate, Rickie caminhava tranqüilamente pela calçada, altivo e seguro de sua superioridade. De repente, ele é barrado por uma mulher loira, de beleza razoável.

- Pois não?

- Desculpe, mas você não é o Brian?

- Não, não sou. Passar bem.

- Espera. Podemos nos conhecer melhor.

- OK, qual é o seu nome?

- Julia. Julia Roberts, prazer.

- Tá, Julia. Meu nome é Rickie B. Rockfeller. Tchau.

Rickie esnoba a tal mulherzinha. Tudo o que ele queria era sossego. Só que não demora muito e uma outra aparece:

- Oi, bonitão.

- Não acredito! Mais uma prostituta?

- Não sou prostituta, hehe. Sou atriz, estou passando as minhas férias aqui.

- OK, não me importa, até mais.

- Puxa... vai me deixar aqui, sozinha?

- Vou. E dê um pulo no médico. Sua boca está inchada.

Angelina Jolie não era lá grandes coisas, mesmo. E enquanto Rickie andava, as mulheres se impressionavam e os homens se mordiam de inveja. Como podia, alguém tão perfeito, tão superior como Rickie B. Rockfeller, existir e sair por aí, impunemente? A vida é uma injustiça. As qualidades nos seres humanos são tão escassas, e Rockfeller concentrava boa parte delas. Ele detém o poder. E a beleza. Ele é o máximo. Os postes se intimidam com sua luz. Ele... "

- Deuterônimo! Já são seis horas! Hora de tomar seu remédio pra ansiedade e de fazer seus exercícios de matemática!

- Já vou, mãe.

- Ah, garoto, esse tal de Second Life só atrapalha sua vida! 

Despedida

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- Desliga você.

- Não, desliga você!

- Não, amor, desliga você.

- Não, não, você desliga, hihi.

- Ah, Má, desliga você, é um desprazer pra mim, ter de fazer isso.

- Não, Franzinho, desliga você, pra mim tambem é, hihi.

- Ah, então tá.

(tu-tu-tu)

.

Em um outro dia:

- Vai, Má, desliga você.

Silêncio.

- Amor?

- Não, tava conferindo uma conta de água que chegou hoje.

- Ah, tudo bem. Hehe. Então, desliga, vai.

- Claro, Franz, claro.

(tu-tu-tu)

.

- Ei, o que deu em você naquele dia, de desligar com tudo?

- Ué, Franz, você tinha feito o mesmo comigo.

- Ah, é que a gente ficou no lenga-lenga de um falar pro outro desligar. Como aquilo ia longe, eu preferi abortar antes que a conta de telefone ficasse alta. Daí...

- Tá, tá, Franz. Já entendi. Mas não precisava ser abrupto daquele jeito.

- Ah, desculpa, amor.

- Não, tudo bem, daí eu reagi do mesmo jeito depois. Fui estúpida. Me desculpa também por aquele dia.

- Não, tudo bem, amor, se eu não tivesse feito, nada disso teria acontecido. Eu que peço desculpas.

- Não, mas eu poderia ter reagido de outro jeito, sei lá. Eu que peço, é sério.

- Desculpa, Má.

- Desculpa eu.

- Não, desculpa eu!

Domingo, 16:00

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Um longo suspiro.

Muito bem. Estou em casa, é meu primeiro fim de semana morando sozinho, sem esposa nem filhos. Estou solteiro. Livre. Solto. Como um pardal.

Olha pra cima e pensa um pouco.

Como um pardal que foi expulso de sua gaiola e que agora quer voltar a ela deliberadamente. Não foi um exemplo feliz. Não, não mesmo. Mas tudo bem. Vejamos, o que posso fazer. Hum, claro, posso telefonar pra algum amigo.

Pega uma agenda.

Nossa, o que a vida de casado não faz. Minha agenda tá desatualizada. Não falo com este há tempos. Este está morando na Grécia. Este daqui, que Deus o tenha. Este é um chato. Este.. quem é Danilo? Ah, lembrei, ninguém que valha a pena. Este daqui... tá me devendo dinheiro. É, acho que eu sei por que eu não falo mais com eles.

Liga a TV.

Futebol. Gugu. Raul Gil. Faustão. Nossa, maldita hora em que eu deixei a Fernanda ficar com a casa e com a TV a cabo!

Vai para a cozinha. Abre a geladeira.

Hum, vejamos. Um pedaço de repolho, iogurte estragado, três ovos, goiabada, contra filé. Nada que pres... opa, tem uma latinha de cerveja aberta lá atrás.

Dá um gole.

Porcaria, tá sem gás.

Vai para o quarto. Liga o computador. Tenta se conectar à internet.

Ocupado. Internet discada é uma desgraça. Maldita hora em que eu deixei a Fernanda ficar com a casa, com a TV a cabo e com o Virtua! Bom, eu posso jogar Freecell...

Depois de 5 minutos de jogo:

Chega, que decadência. Não é possível que não existe mais nada a fazer. Vou dormir. É isso, vou dormir. Ah, a cama, berço de sonhos e da energia, onde eu posso escapar da realidade em devaneios. Haha, que poético. Nossa, adoro esse travesseiro de pena de ganso. Isso, pelo menos, eu consegui tomar da Fernanda. Ah, boa noite. Até daqui a um século.

...

...

(ping)

...

(ping)

...

(ping)(ping)

(ping)(ping)(ping)

Pô, brincadeira essa torneira, não?

Levanta-se. Vai à cozinha. Fecha a torneira. A torneira continua pingando.

Você vai parar de pingar por bem ou por mal!

Fecha a torneira com a maior força do mundo. A torneira quebra e começa a vazar água abundante. Rapidamente, a cozinha começa a virar um aquário. Tenta amarrar a torneira quebrada com um pano de prato.

Livre como um pardal. Como um pardal que tropeçou e caiu dentro de uma piscina suja, cheia de lodo e... molhada.

Análise cuidadosa

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No bar.

- Alé, eu vou indo.

- Até mais, Flávia.

Alé ficou na mesa do bar e pediu mais uma bebida. Olhou para um homem na outra mesa.

"Olha que lindinho aquele lá. Bem vestido, deve ter dinheiro. Parece simpático. Vejamos, parece que tem um livro no canto da mesa. Uhm, deve ter algum papo. Será que eu vou lá? Ah, que maldição. Deve ter algum defeito, não dou sorte com homem. Parece que tem... não, não tem aliança. Roupa bem lavada demais, será lavanderia? Se for lavanderia, é certo que não é casado. Mas deve ter algum problema, não deve? Louco? Neurótico, chato? E será que é gay? Ah... não, parece que não é. Mas se... será que eu vou lá? (ou será que é?) Ai, tinha que ser, taí: voltou do banheiro uma mulher e sentou na mesa dele. Mas não! Não é namorada: não se beijaram. Pronto, ela está indo embora - tá indo mesmo, porque olhou no relógio e está levando a bolsa. Não se beijaram mesmo, taí, não é namorada. Deixa eu ver, que ele está bebendo? Vodca com morango... Ai, olha aquele braço! Vou lá sim. Vou lá? E se for casado? E se for gay? Deixa eu acenar, me viu, sim, me acenou de volta! Ai ai ai, acho que é gay, sim!"

Alé, ou Alexandre, se levantou e foi para a outra mesa para paquerar.